Labirinto Sintropico, 2016

Galeria Zipper, São Paulo, Brazil.

Site-Specific Installation for solo show “Labirinto Sintropico”

Curated by Marta Ramos-Yzquierdo

Photo: Gui Gomes / Video: Revista AMARELLO

Labirinto Sintropico

Texto: Marta Ramos-Yzquierdo

Sintropic Maze

Text: Marta Ramos-Yzquierdo

… Primeiro, reconhecemos o espaço como o produto de inter-relações (...)

Segundo, compreendemos o espaço como a esfera da possibilidade da existência

da multiplicidade (...) Terceiro, reconhecemos o espaço como estando sempre em

construção. Precisamente porque o espaço, nessa interpretação, é um produto

de relações-entre, relações que estão, necessariamente, embutidas em práticas

materiais que devem ser efetivadas, ele está sempre em processo de fazer-se.

Jamais está acabado, nunca está fechado. Talvez pudéssemos imaginar o espaço

como uma simultaneidade de estórias-até-agora”. (1)

*Alguns dados antes de começar:

1. Na criação de um labirinto, os construtores usam uma série de algoritmos e

combinações matemáticas na definição dos percursos nele traçados. Nos exemplos

mais complicados, os chamados labirintos multicursais de múltiplas conexões, não

existe uma única opção, sendo possível nunca encontrar o centro ou a saída.

2. A sintropia foi definida no campo da estatística, em 1988, como a medida do grau de “organização interna” na interação dos componentes que formam um sistema.

A sintropia é o montante complementar à entropia, entendida como o grau de “incerteza”. Dessa forma, quanto maior é o grau da sintropia dessa organização

interna, menor é a possibilidade do sistema colapsar.

Vilém Flusser:

tapeçaria, abstração e arquitetura ou representação, cálculo e filosofia

O livro Flusseriana – Uma Caixa de Ferramentas Intelectual apresenta o pensamento do filosofo Vilém Flusser a respeito do conceito de “tapeçaria” como um gesto sobre uma estrutura. Aquele em que a urdidura oculta a trama, a estrutura da qual

é parte. Assim, “uma tapeçaria urdida com o desenho de uma paisagem se constitui

como a representação de um mundo externo e cria na parede a sensação de janela, o que nos faz lembrar de Arthur Schopenhauer com a sua ideia de “mundo como representação”. Ainda que possua um desenho abstrato, a tapeçaria é uma representação que se constitui como uma espécie de negação de sua realidade mais imediata – que é a trama na qual está assentada. Neste sentido, poderíamos tomá-la como contra-representação”.(2)

Por meio do conceito de abstração e, sobretudo, pela capacidade de abstrair,

Flusser analisa o embate do homem com o mundo. A aprendizagem é feita através

de modelos codificados, com os quais tentamos estruturar o entorno e também a

nós mesmos. Sobre essas construções, esses cálculos e a reconfiguração dos dados como se faz na álgebra, se organiza uma lógica para acessar a realidade.

Nesse sentido, o cálculo seria não só uma abstração matemática, como também a base da contemplação das formas externas.

O desafio seria, então, o uso da aptidão de calcular para a libertação das categorias, impostas desde o Renascimento e o

Iluminismo. Nessa abstração existe a possibilidade de novos projetos, da negação

do abismo e da aceitação da crise da linearidade, com a criação de novas relações.

Essa particularidade da multiplicidade - nômade e migrante - das categorias é

a mesma que Flusser identifica na arquitetura, pensada como estrutura modular,

sendo ela mesma metáfora do pensamento na procura de uma nova forma de filosofia.

Os três tempos

... Muda sua natureza e acrescenta suas conexões: nela, não há posições, só linhas.(3)

No seu fazer artístico Janaina Mello Landini reconfigura as concepções da estrutura do tempo, no jogo das articulações do espaço. Cada um de seus trabalhos abrange três aspectos temporais que não podem ser esquecidos, e que, juntos, nos colocam

ante um questionamento contínuo de estruturas aprendidas.

O tempo empírico, em primeiro lugar. Existe uma consciência do tempo como vivência.

A fonte para as representações é a contemplação, a ação empírica do olho da artista sobre a paisagem onde vive. No início foi o caminho que via no percurso de sua casa ao trabalho, em Minas Gerais. Os reflexos e luzes foram formando outro panorama – herança que ainda vemos na vibração criada pelo tratamento da cor das fitas e na tensão do elástico que compõem a instalação

– uma estrutura abstraída em pixels que são a origem da série “Labirintos”, ao transferir sua experiência para a cidade. Uma urbe que não se constitui como definida ou única, mas como um labirinto randômico e rizomático, onde os planos e vistas se multiplicam e se fundem fora da disposição cartesiana.

O tempo abstrato. A formação como arquiteta faz com que Janaina planeje cada uma de suas instalações e peças como um projeto. Uma abstração que através de cálculos estruturais e matemáticos, formalizam as concepções surgidas na observação. Nesse caso, as proporções de cada elemento que compõem o desenho deste labirinto seguem a sequencia de Fibonacci (0+1=1, 1+1=2, 1+2=3,

2+3= 5, 3+5=8, tendendo ao infinito).

Mas existe outra lógica na composição, que

engana nossa primeira percepção de estar na frente de um estudo clássico de perspectiva. As linhas desses labirintos não têm um ponto de fuga único, e não tem um só ponto de vista. Todas elas formam a visão do que a artista define como “poliolho”, resultando em uma grande “Ciclotrama” onde se unem todos os pontos de vista possíveis. Uma tentativa de “ver tudo” ou “de unir tudo, presente e passado”, que desagua na anulação da perspectiva. O espaço seria uma armadilha, como pode ser o labirinto.

E, por último, o tempo histórico. Não o tempo da grande história, mas sim aquele que decorre na duração do trabalho manual, do tecimento da trama e da urdidura, aquele que provém da tradição das mulheres costureiras que lhe ensinaram a bordar.

Seria aquele tempo dos pontos de vista que se contrapõem à perspectiva histórica,

como falaria Maria Thereza Alves (4); ou que descreve Elizabeth Grosz, nas nomeadas

arquiteturas do feminino, que baseadas no excesso, poderiam desestabilizar as noções patriarcais de espaço e tempo (5). É esse mesmo tempo que relaciona o trabalho de Janaina com mulheres artistas que já antes teceram alternativas na sua produção artística: Annie Albers, Louise Bourgeois, Teresa Lanceta, Gego, Claire Zeisler, Etel Adnam ou Sheila Hicks. Nelas se reclama um olhar outro, fora do pensamento hegemônico para a aprendizagem do mundo.

Em seu labirinto sintrópico, Janaina Mello Landini nega os conceitos prévios de

perspectiva e de sua construção, para mergulhar em sistemas de relações internos

diversos, procurando novos saberes na fusão de jeitos de olhar e de trabalhar o espaço e o tempo.

*Um último dado para finalizar:

3. Teseu saiu do labirinto de Cnosso logo após vencer o Minotauro, seguindo o fio do novelo que Ariadne tinha lhe entregado.

 

 

...First, that we recognize space as the product of interrelations (...) Second, that we understand space as the sphere of the possibility of the existence of multiplicity (...) Third, that we recognize space as always under construction. Precisely because space on this regarding is a product of relations-between, relations which are necessarily embedded material practices which have to carried out, it is always in the process of being made. It is never nished; never closed. Perhaps we could imagine space as a simultaneity of stories-so-far”. (1)

 

*Some info before starting:
1. In creating a maze, manufacturers use a number of algorithms and mathematical combinations in de ning the paths traced within it. In the more complex examples, such as the so-called branching multicursal mazes with multiple connections, there is no single option and it may be possible to never nd the center or the exit.

 

2. Syntropy was de ned in the eld of statistics in 1988 as the measure of the degree of “internal organization” in the interaction of the components that make up a system. Syntropy is the complement to entropy, understood as the degree of “uncertainty”. Thus, the higher the degree of syntropy of internal organization, the lower the possibility of the system collapsing.

 

Vilém Flusser: tapestry, abstraction and architecture or representation, calculation and philosophy


The book Flusseriana – An Intellectual Toolbox presents the thoughts of philosopher Vilém Flusser on the concept of “tapestry” as a gesture upon a structure. The one in which the texture hides the warp and woof, the structure of which it is part. Thus, “a tapestry woven with the design of a landscape constitutes a representation of an external world and creates on the wall the feel of a window, which reminds us of Arthur Schopenhauer with his idea of ‘the world as representation’. Although it has an abstract design, tapestry is a representation constituted as a sort of denial of its most immediate reality - which is the threading upon which it is based. In this sense, we could read it as counter-representation”. (2)

 

Through the concept of abstraction and, above all, through the ability to abstract, Flusser examines man’s clash with the world. Learning is done through encoded models with which we try to structure the environment, as well as ourselves. Upon these constructions, these calculations and the recon guration of data as is done in algebra, a logical frame is organized to access reality. In this sense, the calculation would not only be a mathematical abstraction, but the basis for contemplation of external forms. The challenge would then be the use of the ability to calculate towards the freeing from the categories imposed since the Renaissance and the Enlightenment. In this abstraction there is the possibility of new projects, of denial of the abyss, and of acceptance of the linearity crisis, with the creation of new relationships. This peculiarity of the multiplicity - nomadic and migrant – of categories is the same that Flusser identi es in architecture, viewed as a modular structure, being itself a metaphor of thought in the search for a new form of philosophy. 1. Doreen Massey, For Space, Sage Publications, London, 2005. 2. Siegfried Zielinski e Peter Weibel ed., Flusseriana – Uma Caixa de Ferramentas Intelectual, ZKM I Center for Arts and Media, Karslruhe, Vilém Flusser Archive at Berlin University of Arts, e Univocal Publishing, Minneapolis, 2015. 3. Mónica Amor sobre a obra relação da obra de Gego e Gilles Deleuze e Félix Guattari, Mil Platôs. Capitalismo e Esquizofrenia. “Another Geometry: Gego’s reticulárea, 1969- 1982.” October Magazine USA, Summer 2005.

 

The Three times

 

... It changes its nature and adds its connections: In it there are no positions, only lines. (3)

 

Janaina Mello Landini recon gures in her art the conceptions of time frame in the game set of space. Each of her works carries three temporal aspects that cannot be forgotten, and which, together, put forth a continuous questioning of seized structures.

 

The empirical time, rst and foremost. There is an awareness of time as experience. The source for representations is contemplation, the empirical action of the artist’s eye on the landscape inhabited. At rst it was the path she saw on her route to work in Minas Gerais. The re ections and lights slowly formed another panorama – a heritage still seen in the vibration created by the color treatment of the ribbons and in the elastic tension composing the installation - a structure abstracted in pixels which are the origin of the series “Labyrinths”, by transferring her experience to the city. A metropolis that is not de ned or unique, but is constituted as a random and rhizomatous maze, where planes and views multiply and fuse outside of the Cartesian arrangement.

 

Abstract time. Janaina’s architecture academic background leads her to plan each of her installations and pieces as a project. An abstraction which, through structural and mathematical calculations, formalizes the ideas risen in observation. In this case, the proportions of each element making up the design of the labyrinth follow the Fibonacci sequence (0 + 1 = 1, 1 + 1 = 2, 1 + 2 = 3, 2 + 3 = 5, 3 + 5 = 8, tending to in nity). But there is another logic in the composition, which deceives our rst perception of being in front of a classic study of perspective. The lines of these labyrinths do not have a single vanishing point, nor do they have a single point of view. They all form the vision of what the artist de nes as “poly-eye”, resulting in a large branching where all possible points of view come together. An attempt to “see all” or to “unite all, present and past,” which ends in an annulment of perspective. The space would then eventually be a trap, just as the maze might be.

 

And lastly, the historical time. Not the time of the grand history, but the one running during the manual work, the weaving of the warp and woof, the one originated from the tradition of seamstresses who taught her to embroider. It would be the time of opposing points of views to the historical perspective, as would put Maria Thereza Alves (4) ; ; or the time described by Elizabeth Grosz in the named female architectures which, based on excess, could destabilize the patriarchal notions of space and time. It is this same time that relates Janaina’s work to other women artists who have previously woven alternatives in their artistic production: Annie Albers, Louise Bourgeois, Teresa Lanceta, Gego, Claire Zeisler, Etel Adnan and Sheila Hicks. They all plead for another perspective for learning the world, outside of the hegemonic thinking.

 

Thus, the three approaches in the syntropic labyrinths of Janaina Mello Landini deny the previous concepts of perspective and their construction, so as to delve into the various internal relations systems and seek new knowledge in the fusion of perspectives and in working with space and time.

 

*One last info to finish:

 

3. Theseus came out of the labyrinth of Knossos after defeating the Minotaur, by following the thread that Ariadne had given him.

(1) Doreen Massey, For Space, Sage Publications, London, 2005.

(2) Siegfried Zielinski e Peter Weibel ed., Flusseriana – Uma Caixa de Ferramentas Intelectual, ZKM I Center for Arts and Media, Karslruhe, Vilém Flusser Archive at Berlin University of Arts, e Univocal Publishing, Minneapolis, 2015.

(3) Mónica Amor sobre a obra relação da obra de Gego e Gilles Deleuze e Félix Guattari, Mil Platôs. Capitalismo e Esquizofrenia. “Another Geometry: Gego’s reticulárea, 1969- 1982.” October Magazine USA,

Summer 2005.

(4) Maria Thereza Alves, Canibalismo no Brasil desde 1500, Periódico Permanente, n.4, 2013.

www.forumpermanente.org/revista/numero-4/textos/canibalismo-no-brasil-desde-1500

(5) Elizabeth Grosz, Architecture from the Outside, The MIT Press Cambridge, 2001.

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