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Espaço Preso
EXPOSIÇÃO
Espaço Preso
CURADOR
Ícaro Ferraz Vidal Jr.
SÉRIE
Ludic Spaces ou
Labirintos da Maldade
ANO
2022
LOCAL
Zipper Galeria,
São Paulo, Brasil
MATERIAIS
Madeira, grampos de arame, elásticos, lâmpada, sensores de movimento, computador e equipamento de áudio.
DIMENSÃO
2.7 x 4 x 10 m
CREDITOS
Foto: Julia Thompson
VideoS: Zipper Galeria
Performer: Mauricio Leonard
Sound designer: Paulo Santos
SOBRE ESTA OBRA
Texto de Ícaro Ferraz Vidal Jr.
"O psiquismo não pode resolver-se unicamente no nível do ser individuado; ele é a base para a participação numa individuação mais vasta, a do coletivo; sozinho, o ser individual, colocando-se em questão, não pode ir além dos limites da angústia, operação sem ação, emoção permanente que não consegue resolver a afetividade, experiência pela qual o ser individuado explora suas dimensões do ser sem poder ultrapassá-las. Ao coletivo, tomado como axiomática que resolve a problemática psíquica, corresponde a noção de transindividual."
Gilbert Simondon
Em sua filosofia da individuação, Gilbert Simondon diagnosticou um aspecto comum às duas principais doutrinas que se contrapunham no debate em torno da natureza do indivíduo. Ambas teriam falhado, segundo o filósofo, por partirem de indivíduos plenamente constituídos para deles derivar o princípio de individuação que os teria engendrado. A esta ênfase da tradição ocidental no ser individuado, Simondon contrapôs sua ontogênese: um estudo não do indivíduo constituído, mas dos processos de individuação, o que implicava deslocar o foco do ser individuado para o par indivíduo-meio.
Mobilizar esta noção pode nos ajudar a compreender o estatuto do espaço na poética de Janaina Mello Landini. Seus diversos Ludic Spaces ou labirintos da maldade, série de ambientes concebidos no começo dos anos 2000, correspondem a diferentes modulações afetivas que foram elaboradas espacialmente pela artista, arquiteta de formação. O espaço, colonizado pela geometria euclidiana como plano homogêneo sobre o qual posicionamos corpos e objetos, raramente serviu, como meio ou linguagem, à elaboração dos afetos.
Esta raridade poderia encaminhar uma análise das proposições espaciais de Janaina limitada ao domínio da arte a partir, por exemplo, da conhecida ampliação do campo da escultura, formulada por Rosalind Krauss no final da década de 1970. Os Ludic Spaces ou labirintos da maldade podem ser pensados em relação aos movimentos que, a partir dos anos 60, tensionaram os limites do objeto de arte e investiram na experiência sensorial em detrimento da autonomia formal, mas essa genealogia não esgota as possibilidades de análise da série.
Espaço preso é, de todos os Ludic Spaces, o único que já foi construído, em 2011 na cidade de Belo Horizonte, fruto de uma colaboração da artista com Daniel Landini.
A instalação apresentada agora na Zipper consiste em um espaço retangular, fechado e transpassado por inúmeros fios elásticos presos às paredes, ao chão e ao teto. A impressão visual de quem chega ao espaço é de uma trama caótica. Há dois acessos ao interior deste espaço, um em cada extremidade do retângulo, de modo que a experiência de deslocamento de um ponto a outro é marcada pela resistência criada por esta trama elástica, que se interpõe à livre circulação do corpo do visitante. A experiência afetiva que engendra Espaço preso não é marcada, portanto, por uma busca labiríntica: sabemos onde queremos chegar, mas nos vemos impossibilitados de traçar uma linha reta de um ponto A a um ponto B. O Espaço preso não é vetorial.
Ao respondermos à interpelação de Espaço preso, darmos o primeiro passo e tensionarmos o primeiro fio, acessamos outra camada fundamental do trabalho: sua sonoridade. Nesta nova montagem da instalação, a artista contou com a colaboração do músico Paulo Santos, que criou uma composição harmônica para a obra, explorando as semibreves, mínimas, semimínimas, colcheias, semicolcheias, fusas e semifusas. Uma vez composta, a obra de Paulo Santos foi decomposta e distribuída em dezesseis canais, ativados independentemente uns dos outros, em função do tensionamento dos diferentes agrupamentos de fios elásticos. À medida que os visitantes deslocam seus corpos pela instalação, uma composição randômica vai sendo tocada, evidenciando a inseparabilidade do espaço e do tempo. A harmonia é possível, mas não é dada; em meio à cacofonia, o visitante descobre as relações entre seu corpo, o espaço e o som. Tal descoberta, no entanto, dificilmente se desdobraria em uma compreensão cartesiana do Espaço preso, uma vez que esta grande trama elástica faz com que nossos gestos reverberem a diferentes distâncias de nosso corpo, criando um caos sonoro que espelha o caos espacial.
Tendemos a pensar as relações indivíduo-meio de modo segmentado e descontínuo, geralmente nos termos das influências que um exerceria sobre o outro, e vice-versa. Espaço preso coloca abaixo esta forma de conceber tais relações: em primeiro lugar, porque a invenção do meio, por Janaina, é o prolongamento de um processo de subjetivação, de elaboração da experiência afetiva; em segundo lugar, porque este meio instaura um plano transindividual no qual os afetos elaborados pela artista passam a circular por outros corpos e integrar outros processos de individuação; por fim, porque este movimento é cíclico e tende ao infinito – novas elaborações afetivas seguirão ocorrendo, tanto por parte da artista, quanto do público da exposição.
Além da instalação, a exposição Espaço preso apresenta um vídeo de 2011, produzido na primeira versão da obra em colaboração com Maurício Leonard. Nele, vemos o performer interagir com Espaço preso, não através de um deslocamento tenso em direção à saída, mas em uma experimentação coreográfica que promove os limites impostos pela densidade elástica do espaço a elementos estruturantes de uma gestualidade também elástica. Estamos fora do Espaço preso e o vemos, no televisor, habitado por uma terceira pessoa. Esta tomada de distância, este “ver de fora” é um momento crucial na elaboração do que foi nossa experiência na instalação. A ambiguidade do título da série - Ludic spaces ou labirintos da maldade - retira desta experiência do corpo no espaço qualquer determinação moral.
Sem interesse em encontrar uma saída, o corpo de Maurício Leonard desafia a teia elástica em um jogo que apresenta outra forma de habitar o Espaço preso. Talvez, a ludicidade, fundamental para os processos de elaboração afetiva, encontre-se nesta possibilidade de invenção de outros arranjos entre o corpo, o espaço e o tempo.
Por fim, a exposição reúne um conjunto inédito de pinturas que representam, em perspectiva frontal, um espaço interior, cúbico, sobre o qual a artista apresenta os diferentes diagramas de forças que estruturam o espaço tramado no qual nos vimos enredados ao adentrar Espaço preso. A apresentação ordenada das múltiplas relações de forças que compõem a espacialidade caótica da instalação remete ao enigma das articulações entre as partes e o todo, que habita o cerne da poética de Janaina. O encontro da artista com os fundamentos teóricos do cálculo no contexto de sua formação em arquitetura teve um papel central em sua forma de ver e agir sobre o mundo. A possibilidade de decomposição de grandes problemas em diversos problemas menores fornece a estrutura subjacente a toda a obra de Mello Landini, e pode ser observada também nesta decomposição do caos nas relações que o constitui.
Esta decomposição do ambiente instalativo nas telas da série Diagramas de forças ajuda-nos a compreender a espacialidade construída pela artista e, embora não reduza a memória das forças que atuaram sobre nosso corpo na vivência da obra, é mais um passo importante na elaboração da experiência com a instalação. Imersos corporalmente, distanciados através do vídeo e, enfim, capazes de abstrair as diferentes relações estruturantes do caos, experimentamos a própria genealogia do pensamento analítico. Este processo, no entanto, não é linear, pois ficamos tentados a ingressar novamente no Espaço preso para seguirmos transformando-nos em nós mesmos.

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